No centro de Curitiba, uma mulher carrega sobre a cabeça uma lata d’água. Durante décadas, quem passava pela Praça José Borges de Macedo conhecia a escultura como “Maria Lata d’Água”. Por trás do bronze, porém, existe uma história que por muito tempo permaneceu escondida. O nome dela é Emerenciana Cardoso Neves, conhecida artisticamente como Anita Cardoso Neves, uma mulher negra, carioca e artista de múltiplas linguagens. Nascida no Rio de Janeiro em 14 de março de 1918, Anita foi cantora, poetisa, compositora e escultora. Também está entre as primeiras mulheres compositoras de sambas-enredo no Brasil, com trabalhos ligados a escolas como Acadêmicos do Salgueiro e Unidos de Vila Isabel.
A relação de Emerenciana com as artes visuais começou antes mesmo de sua formação acadêmica. Ela trabalhou e administrou uma cafeteria na antiga Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, instituição onde também atuou como modelo para artistas e estudantes. Estudou desenho e gravura, recebeu medalhas em salões de exposição e, em 1953, ingressou no curso de Escultura da própria escola, formando-se em 1959. Foi nesse ambiente que conheceu o artista paranaense Erbo Stenzel, que a retratou em bronze na obra “Água pro Morro”, criada em 1944. A escultura só chegaria a Curitiba décadas depois, sendo instalada em maio de 1996 na Praça José Borges de Macedo.
A história de Anita, no entanto, ficou durante anos à margem da própria obra que ajudou a eternizar sua imagem. O apelido “Maria Lata d’Água” acabou se popularizando, enquanto o nome e a trajetória da mulher representada permaneciam desconhecidos para grande parte da população. O resgate dessa memória passou por iniciativas que buscaram devolver à escultura sua história e à artista o reconhecimento que lhe pertence. Uma placa de bronze foi instalada junto à obra para identificar Emerenciana e registrar sua trajetória. Recuperar seu nome também significa reconhecer a contribuição de uma mulher negra para a arte brasileira e questionar os apagamentos que transformam pessoas reais em personagens anônimos. Hoje, olhar para “Água pro Morro” é também olhar para Anita: uma artista que viveu, criou, estudou e deixou sua marca na história da arte brasileira, mesmo que por décadas seu próprio nome tenha permanecido escondido atrás do bronze.






