A história de Eloisa Silva Dutra de Oliveira Bonfá é marcada pela ciência, pela medicina e pelo pioneirismo. Nascida em Ribeirão Preto (SP), em 17 de março de 1958, ela construiu uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada à pesquisa, ao atendimento de pacientes, à formação de novos médicos e à gestão de uma das instituições de ensino médico mais importantes do país. Em 2022, alcançou um marco histórico ao se tornar a primeira mulher eleita diretora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que naquele ano completava 110 anos.

Formada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP em 1981, Eloisa iniciou sua trajetória científica poucos anos depois. Em 1984, realizou um estágio de pesquisa no Hospital for Special Surgery, ligado à Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, sob supervisão do professor Keith Elkon. O período resultou em 12 trabalhos publicados em revistas científicas de alto impacto, incluindo um artigo no New England Journal of Medicine como primeira autora. Em 1987, foi nomeada Junior Faculty em Cornell e, no mesmo ano, retornou ao Brasil para dar continuidade à carreira acadêmica.
Na USP, tornou-se doutora em Medicina, na área de Reumatologia, em 1991, e livre-docente em 1994. Quatro anos depois, em 1998, alcançou o cargo de professora titular da Faculdade de Medicina. Ao longo da carreira, produziu cerca de 400 trabalhos indexados, publicou livros e capítulos científicos, recebeu dezenas de bolsas e financiamentos para pesquisas e participou da formação de centenas de profissionais. Também orientou dezenas de teses de doutorado, dissertações de mestrado e trabalhos de iniciação científica.
Sua atuação na medicina esteve especialmente ligada ao estudo do lúpus eritematoso sistêmico, dos autoanticorpos e das terapias biológicas. No Hospital das Clínicas da FMUSP, ocupou diferentes posições de liderança, incluindo a direção do Serviço de Reumatologia, a coordenação do Laboratório de Investigação em Reumatologia e a direção da Divisão de Clínica Médica. Durante sua gestão, foram criados projetos como o Centro de Dispensação de Medicamentos de Alta Complexidade (CEDMAC) e o Laboratório de Avaliação e Condicionamento em Reumatologia (LACRE), iniciativas que ampliaram o atendimento e o cuidado aos pacientes reumatológicos.
Eloisa também foi a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora clínica do Hospital das Clínicas e exerceu a função por duas vezes. Durante a pandemia de Covid-19, esteve à frente do Comitê de Crise Institucional do complexo HC-FMUSP, participando da organização da resposta hospitalar. Segundo a instituição, mais de 13 mil pacientes graves foram atendidos no período e mais de 22 mil funcionários do complexo foram vacinados contra a doença.
Reconhecida por sua atuação científica e administrativa, Eloisa recebeu mais de 50 prêmios ao longo da carreira, incluindo a Medalha Armando de Salles Oliveira, a Ordem do Mérito Médico na classe Grande Oficial e o Prêmio Hospitalar 2022, na categoria Personalidade do Ano na Área da Saúde. Também integrou e participou de diversas sociedades científicas e grupos nacionais e internacionais dedicados à Reumatologia e ao estudo do lúpus.
Em 30 de setembro de 2022, sua trajetória ganhou um novo capítulo. Eloisa foi eleita diretora da Faculdade de Medicina da USP, tendo Paulo Manuel Pêgo Fernandes como vice-diretor. A posse ocorreu em 10 de novembro daquele ano, diante de integrantes da comunidade acadêmica e autoridades. A escolha representou não apenas o reconhecimento de sua carreira, mas também um momento histórico para uma instituição centenária que, pela primeira vez, passou a ter uma mulher no comando.
Ao assumir o cargo, Eloisa destacou a importância de formar e preservar novos talentos e defendeu uma universidade baseada em inclusão, diversidade e pertencimento. Sua trajetória, que começou com a formação em Medicina e avançou pela pesquisa, assistência, ensino e gestão, tornou-se também parte da história da própria USP. Uma mulher que ocupou espaços de liderança antes pouco acessíveis às mulheres e que transformou conhecimento científico e compromisso com a saúde em uma carreira dedicada a formar pessoas e melhorar a medicina brasileira.






